
A primeira coisa que chama a atenção ao ter-se Sweet Shadows em mãos é a primeira coisa com que se depara: a capa. Até aí tudo bem, é um belo trabalho de fotografia apenas... Tira-se o CD da embalagem, é hora de tocá-lo...
Acredito ser a primeira faixa, Broken Bridge, a mais representativa do álbum − e logo perfeita para abrir a seqüência. Os primeiros 77 segundos são uma síntese da beleza que será exposta ao decorrer das 11 faixas. A sensibilidade representada pelo piano, o lado urbano e escurecido das batidas do downbeat em contraste com a claridade exuberante dos vocais de Natalie; vocais que de tão belos nos levam a realmente acreditar no que é dito − e sinceramente me vejo ponderando e aceitando: all my rooms are filled with musty dust, time has taken all that I possess, I never know if to laugh or to scream, to hate or to believe...
Shattered, a segunda faixa, é primorosa. Um pouco mais agressiva que a anterior, é ainda suave, talvez escurecida talvez nostálgica. Cordas, loops, samples, estilo próprio, a criatividade de Daughter Darling dá espaço a tudo.
Segue Let Me Speak. Um ábum que começou mais suave e sensível abandona agora um pouco da doçura pra soar mais agressivo, com um belo trabalho de batidas industriais e scratchings.
Vem então Absconding, como uma pausa necessária ao eletrônico: sob o som do piano e do violoncelo, Natalie extirpa qualquer possível sobra de dúvida sobre seu talento, deixando claro ser ela uma das mais talentosas cantoras já vistas na cena downbeat. Curta demais a faixa aos ouvidos, que reclamam com a interrupção da voz de Natalie... Tudo bem, Mermaid é a seguinte.
Uma das melhores faixas do álbum, Mermaid é a mim certamente uma das melhores faixas de trip-hop já produzidas. Riquíssima, profunda, englobando desde que o a mim soam como grunhidos animais e sons da natureza até um primoroso trabalho de programação; batidas cruas do tradicional trip-hop numa evolução que chega a uma mistura hipnótica, com influências do breakbeat. Do som da tempestade, talvez do mar, surge Sad & Lonely; belos scratchings para acaompanhar os belos vocais. Em torno dos 50 segundos, Natalie vai causar arrepios aos ouvintes mais desavisados: a potência de seu praticamente grito é de fato um momento de clímax.
A faixa de número 7 é Things Untold. Batidas cruas, cordas, mais scratchings. Do you see beauty or do you see tears? Vejo o que a beleza refletida no espelho das lágrimas... Voodoo Games prossegue a obra, uma faixa mais escurecida; batidas metálicas, linhas de baixo carregadas. You Won't See Me anuncia o fim próximo do CD, com os sons de seu violoncelo.
Sweet Shadows, então, principia o fim; é uma faixa hipnótica, misteriosa, obscura, um trip-hop em sua plenitude. A sombra prossegue em Dust in the Wind, um cover da canção do Kansas, num virtuosismo nostálgico. Soa de fato nostálgica, se não por si só também por ser a faixa de despedida. Realmente, o álbum poderia prosseguir por horas e eu jamais reclamaria, porém... I close my eyes only for a moment and the moment's gone...
(Ah sim, novamente a capa... Não, não se trata, afinal, de uma mera fotografia... É parte integrante da obra, como se todas as canções viessem para descrever aquele horizonte nebuloso e inevitavelmente belo; o campo da percepção não é plenamente absorvido pela razão... Da maneira pela qual viria um amigo meu (Eldar) a citar Daughter Darling, don't you feel so sad you know it can't be that bad?)
Um breve relato subjetivo apenas das canções. Não pretendo eu as dissecar. Isso cabe a cada ouvinte. Porém, ao final, o que dizer de Sweet Shadows? Eu particularmente não batizaria assim o álbum assim, talvez de Sweetest Shadows, ou Greatest Shadows. Trata-se de um dos mais belos trabalhos que já tive a oportunidade de ouvir no gênero, durante uma década de contato diário com o downbeat. Como já anunciei em outros lugares, tenho a este CD um lugar certo em minha discoteca, num espaço que reservo tão-somente ao essencial, ao lado de pérolas como Dummy (Portishead), Blue Lines (Massive Attack), Who Can You Trust (Morcheeba) e Background Door (U-topia). É certamente uma obra-prima, um trip-hop que denota a grande sensibilidade dos que por trás dele se encontra: Daughter Darling. Há criatividade, há poesia e mais do que tudo há trip-hop. Difícil acreditar que pudessem estrear na cena com tanta força e tão bem, e por isso mesmo não se há de duvidar que possam ser ainda melhores; o futuro verá... Sim, o futuro; Daughter Darling é a resposta exata aos que teimam em rotular o trip-hop como música dos anos 90; uma bela resposta aos que dizem, como muitas vezes ouvi (até por críticos, que soam incultos quanto ao trip-hop, nacionais; mesmo alguns renomados...), ser o trip-hop algo em decadência, depois da febre da década passada. Pois é, Senhoras e Senhores, o trip-hop está vivo e fazendo barulho...
(Pergunto-me: quando virá o próximo álbum?; já o estou a aguardar...)
álbum: sweet shadows
artista: daughter darling
ano: 2003
selo: plain jane records
review by tripofagia
agosto de 2003